quarta-feira, 28 de setembro de 2016

RETORNO A OCASIÃO..................

Ubatuba em época de tainha (Arquivo Igawa)
       Há dois anos, respondendo ao colega Chico Abelha, publiquei o presente artigo para maiores informações a respeito da Caçandoca. Só esqueci de lhe dizer o quanto foi importante, na luta local, a entrevista com a Dona Maria Galdino, feita pelo mano Mingo no começo de 1990. Acho que cabe a ele publicar essa riqueza por ele escavada. Aguardemos!

     Olá, Chico! Está acompanhando essa narrativa? Ela é localizada, ou seja, a partir do lugar, das pessoas e da problemática da minha ascendência paterna (da região da Caçandoca). Porém, se aplica ao macrocosmo de Ubatuba. É por isso que, numa audiência pública das terras caiçaras, um representante da promotoria pública estadual afirmou que “não existe um pedaço de terra em Ubatuba que não tenha pelo menos três documentos brigando entre si”. 



      É bom saber: até o princípio do século XX, o caiçara era semi nômade: só parava num lugar para cultivar e pescar por um tempo. Isto significa que, cansando dali, cansada a terra, dando saudade de alguém em outro lugar, ia-se. Os pertences eram poucos; cabiam numa canoa. Logo, naquele lugar que ele ocupou,  se arruinava a casa de pau-a-pique coberta  de sapê. Tudo voltava a ser mato fechado. Era uma movimentação, a bem dizer, espontânea. O que eu comecei a lhe explicar na primeira parte da presente questão tem uma forte correlação com a história de um povo bem distante: os judeus, cuja diáspora, “esparramação”, conforme explicação do saudoso tio Maneco Mesquita, “se deu por volta do ano setenta depois do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo”.


       Dentro do conceito de diáspora, eu fiz questão de visitar os parentes em Vicente de Carvalho, em São Vicente, nos morros (do Funhanhado, do Algodão, das Moças, do Querosene), na Estufa, no Porto Novo, nos Tourinhos etc. Ainda tenho gravações - em fitas cassete! - inéditas de muita gente, inclusive do patriarca Gabriel e da matriarca Benedita do Caliano. "Tudo gente que foi morar em lugares feios!".  Como diria a vovó Martinha ao escutar as minhas narrativas naquela época: “É tristeza de dá dó”.
      Mais triste foi a condição de quem se fez de capacho dos ricos.       Se tornar capacho, lugar de se pisar, provoca a perda da identidade, a renúncia aos muitos valores seculares. Também impede a tomada de consciência de sua condição de exploração. Passam a valer os ditados: “Quem puder mais chora menos”, “Farinha pouca, meu pirão primeiro”...E por aí vai.  

          Copiar os exemplos de outros pobres que vão chegando de outras regiões empobrecidas, desde a década de 1970,  passa a ser uma alternativa. Por isso vale avançar nos espaços que ainda não estão com os ricaços. “Questão de sobrevivência” justifica a cobiça que vai danando ainda mais a vida dos irmãos, chegando ao ponto de se colocar a favor dos proprietários de mansões nos jundus.  Até que um dia, esgotadas as já minguadas tetas, passando por condições degradantes, o pensamento se volta às origens. “Que saudade das cebolas do Egito!”. De repente, as opiniões mudam: “Estava certo aquele que tentou se agarrar na sua posse, no seu modo de vida”; “O compadre é pobre, não tem carro, nem luz em casa, mas vive em paz, pode pescar e plantar”...

         Começa o entendimento e a vontade de voltar no tempo. Só que agora o tempo é outro, as necessidades são outras. A cultura também já se modificou. 
     Diante das impossibilidades em face do consumismo ambicionado, o assistencialismo público se apresenta como a solução.
         O ruim disso é que a volta ao espaço original não significa retorno à cultura raiz. E o que se vê, mesmo causando melindres, é “comunidade” bem nos rumos globalizantes, onde o discurso “ideológico” não condiz com a prática. Quando aparece alguém apresentando questões em torno disso, as reações evidenciam a realidade de quem que não é capaz de identificar a sua condição de submetido. O pior: pode conseguir o apoio daqueles ignorantes da condição de exclusão e inferioridade de que foram vítimas. O que eu quero dizer se resume ao seguinte, parafraseando o vovô Estevan dando uma moral após uma certa história de castelo: 

       “Não se mata sapo, menino! Ele pode ter um aviso pra você!”.  Melhor dizendo (ou atualizando o dizer do vovô): podemos estar matando o sapo que somente está mostrando uma realidade muito maior que a nossa lagoa. E o que pode acontecer? Depois do sapo exterminado, os mosquitos e outras denominadas pragas podem se refestelar.

       É só. Tenho dito. Um abração.

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