terça-feira, 9 de agosto de 2016

Peregrinação pelo mar marca Dia do Senhor Bom Jesus



No último sábado, 6 de agosto, cerca de trezentos fiéis fizeram a travessia de escuna para participar, na capela da Ilha Anchieta, da missa do dia do Senhor Bom Jesus, celebrada pelo padre Altair dos Santos, pároco da igreja Nossa Senhora das Dores.





A devoção, presente no calendário e na arte sacra católica em países de colonização portuguesa, era cultivada pelos caiçaras da ilha havia séculos, até eles começarem a ser expulsos de lá pelo estado a partir de 1904. Depois de décadas durante as quais a ilha foi palco de muitas atrocidades e poucas celebrações, a missa do Senhor Bom Jesus pode voltar a ser celebrada em 1999.

Como a retomada de uma tradição não é algo fácil e como os descendentes chamados “filhos da ilha” atualmente vivem no continente, o mês que antecede o Dia do Senhor Bom Jesus é marcado pela exposição da imagem do Bom Jesus da ilha em diversas capelas do continente. No dia 6 de agosto, a imagem retorna à ilha acompanhada dos peregrinos.

A representação artística que hoje adorna o oratório da capela da ilha não é a mesma da época antes da retirada dos caiçaras. A atual é da época da retomada da tradição, obra do escultor José Vicente da Motta Macedo. Isso, no entanto, tem menor importância para os católicos que não veneram o objeto em si, mas sim aquilo que ele representa.

Segundo códigos da arte sacra de matriz portuguesa, são chamadas de “Senhor Bom Jesus” as imagens que representam Jesus Cristo no momento de seu julgamento, flagelado, com as mãos amarradas, coroado de espinhos e coberto por uma capa vermelha.

As imagens do Bom Jesus evocam o trecho do evangelho em que Jesus é apresentado diante do governador romano da Judéia, Poncio Pilatos (Mt 27,26-31, Mc 15,15-20, Jo 19,1-5). Segundo esses mesmo evangelhos, Pilatos condena Jesus à morte, com apoio de sacerdotes, doutores da lei e o clamor de parte do povo.

Não se trata de um “santo”, mas sim de uma representação do mesmo Jesus Cristo que é apresentado recém-nascido nas imagens do presépio, morto nos crucifixos, ou ainda ressuscitado com braços abertos nas imagens chamadas de Cristo Redentor.

Na oração contemplativa diante do Bom Jesus, o devoto medita sobre a bondade infinita de Deus que, depois de assumir a condição de sua criatura humana pelo mistério da encarnação, aceita passar por sofrimentos e injustiças para redimir essa mesma humanidade.

PRESERVAÇÃO

De volta ao continente, o senhor Edson Prado se disse muito feliz com a realização de mais uma peregrinação. Edson é membro da Associação Filhos da Ilha, que reúne antigos moradores daquele pedaço de terra que no passado era conhecido como Ilha dos Porcos e que hoje abriga uma unidade de conservação administrada pelo Governo do Estado de São Paulo.

“A gente tem consciência de que nós, os mais velhos, estamos morrendo”, afirma o ex-habitante da ilha que sente necessidade de preservar a memória e as tradições do local para as futuras gerações.

O sofrimento do Bom Jesus tem muito em comum com a história de muitas pessoas que passaram pela ilha que conserva matas e praias paradisíacas ao lado de arrepiantes e deprimentes ruínas de um presídio do século XX. Ali, em diversos momentos estiveram encarcerados lado a lado presos políticos e presos que cometeram atrozes crimes comuns.

Outra história triste que teve a ilha como palco ocorreu em 1926, depois que imigrantes vindos da Bessarábia com a promessa de terra e trabalho no Brasil se revoltaram ao descobrirem que seriam submetidos a condições análogas à escravidão nas fazendas de café do interior. Em vez de mandá-los de volta para sua terra, o governo paulista os abandonou na Ilha Anchieta sem comida ou assistência. Em cem dias, morreram 151 imigrantes, em sua maioria crianças pequenas.

Mas nem só de lembranças de desumanidades é feita a história da ilha. O pai do senhor Edson Prado, por exemplo, era carcereiro em 1952 quando ocorreu a sangrenta rebelião do presídio. Ele sobreviveu pois teria sido protegido por presos misericordiosos que o pouparam e esconderam dos rebelados mais irascíveis.

FONTE..................INFORMARUBATUBA.COM

Nenhum comentário:

Postar um comentário