quinta-feira, 13 de agosto de 2015

AS SOROROCAS

sororoca
Tava no tempo da Sororoca. Era tanta sororoca que o mar era só rede. Todo mundo da Ponta do Espia tinha largado rede entre a Laje do Tapiá e a Ilha dos Porcos. Até o boqueirão tinham fechado com rede! E era uma folia de gente remendando e largando, indo visitá, fazendo marcação. Essas coisas, você sabe né…de caiçara. O tempo todo tinha canoa na água! Teve até briga por espaço! Mas isso tava começando a não ficar certo, porque até naquela época de fartura a gente tinha que não podia matá tudo. A gente tinha como certo que o peixe iria se acabar. E o seu Marino já tava até falando pra mim “minino, põe pensamento nisso que eu vou te dizê: não tem nem espaço mais pra salgá essa peixarada toda. Deixa os peixe passá e se criá lá na Ribeira.”


Eu fiquei pensêro. E o resto do povo também. No fim, a gente combinou de tirá nossas redes. Era melhor. Fui o último a sair para fazer isso. A gente tinha erguido rancho na Praia do Itapecericuçu pra guardar e secar o peixe e eu fui pra lá. Fui vendo o pessoal voltando pela trilha; ia ter festa na casa do Mané Vermeio, por isso tava todo mundo tão animado que nem me viram passar por eles. Fui feito sombra. Lá na praia não tinha mais gente nenhuma – só o rancho com os varal de peixe secando e a minha canoa. Minha canoa era a Jandira. Que esse era o nome mais bonito que eu conhecia. Jandira. Mais tarde eu fui conhecer a Viviane e a gente teve uma menina. E ela se chamou Jandira também. E quando nasceu minha primeira neta, eu quis que fosse Jandira também. E se eu te falá que eu nunca conheci pessoalmente uma Jandira antes disso, você acredita? Acho que não. Mas é a verdade.
Enfim, tava lá minha canoinha. Eu subi nela e a gente foi lá pro largo puxar a rede. E ela parecia alegre, meio que sabendo que era a última viagem de Sororoca. Porque é assim. Do convívio com a canoa, a gente aprende a entender ela. Chegamos na rede e fui logo puxando, vendo maravilhado aquelas Sororoca caindo pra dentro da Jandira, enchendo o bojo. E devia ter malhado há pouco tempo, porque elas tavam tudo vivinha, cheia de força. Era uma estalação de rabo só, no fundo da canoa. Mas não demorou muito e aquele barulho foi me perturbando – eu olhava pra elas pulando ali, com o olho brilhando ainda, e aquilo foi me embrulhando o estômago. Logo a canoa foi sentando na água com o peso e eu me senti muito mal por aqueles peixes. Você ja viu a Sororoca viva? As cores? É o peixe mais lindo que existe. E eu fiquei ali hipnotizado olhando elas, aquele azul.
De repente reparei num sangue no meio delas. Aquilo foi a gota d’água. Eu vomitei tudo que eu tinha comido e meu estômago começou a arder. Parecia que tinha tomado ácido, porque até minha garganta tava queimando. Sem pensar, enfiei a cara no mar e bebi água salgada, de tanto desespero. Daí, e eu não sei por que, eu abri o olho debaixo da água e vi aquelas outras Sororocas passando, circulando a Jandira. Fazendo volta. Bem calmas, devagar. E eu fiquei vendo aquilo conforme o meu fôlego deixou. Quando subi de novo tomei uma decisão e comecei a jogar as Sororocas tudo de volta para o mar. Eu procurava aquela que tava machucada, sangrando. Mas tava difícil desmalhar elas, e eu tinha pressa. Foi uma confusão danada. E eu parei de prestar atenção em tudo, só ia tirando o peixe da rede e jogando no mar. Fiquei assim, nem sei quanto tempo. Daí aconteceu que eu livrei elas todas e fiquei feliz pra caramba.
Mas era Agosto…agosto, o mês do desgosto. Eu não sabia disso ainda, mas ia aprendê rapidinho, porque quando fui ver o vento tinha me jogado pra direção da Ilha das Cabras e tava me empurrando em direção a Laje da Ponta do Norte, da Ilha dos Porcos. Era um vento meio de Norte, muito forte. Achei melhor ir embora logo, mas tava muito difícil remar contra aquele vento todo. A Jandira tinha proa alta e o vento toda hora mudava ela de direção. Achei que eu tinha mesmo é que pegar e remar pra Enseada das Palmas, que ali tinha um tio meu que morava e eu ficava ali com ele. Mas isso também não deu certo e eu fui sendo arrastado pra fora. Fui me desesperando, porque tava entrando muita água pra dentro da canoa. Toda hora eu parava de remar pra tirar a água e acabava que era mais arrastado ainda. Aí eu forçava mais pra tentá repor a remada, e mais água entrava na canoa. Foi um deus nos acuda.
Só sei que uma hora eu olhei pra Ilha e vi a Ponta do Leste. Aí ferrou. Quando eu vi ela lá eu pensei que já não tinha força de remo que ia me salvá, mas mesmo assim tentei persistir naquilo. O remo já tava até rangendo. E eu remando contra. E a Jandira até rosnava às vezes, com aquela água batendo nela, raspando por debaixo. Fazia um barulho terrível, feio mesmo. Parecia um ronco, sei lá o que era, um rosno de bicho do mato. Ela rosnava mesmo! E eu fui perdendo as forças. Uma hora, me deixei levar. Fiquei ali, tentando apreciar aquilo. Fui vendo aquela Ilha tão bonita que era. As ondas quebrando no costão. Eu ficava imaginando aqueles mariscos lá, tudo sendo lavado, sorvendo aqueles nutrientes todos. Foi bem bonito aquilo ali. Olhava pro Corcovado às vezes, quando ele aparecia por detrás das nuvens. Fui indo.
Eu ia morrer, já tava arranjado pra mim. Eu olhava pra onde eu tava sendo arrastado, pra trás da Ilha, e aquilo é mar aberto. Naquela canoa? A Jandira é canoa boa, mas não pega mar aberto. Tem as borda baixa. Mesmo se fosse alta. Naquele mar! Quando começou a chover foi uma libertação pra mim. Porque naquela hora foi como um banho, pra eu lavá o corpo e morrer em paz. E foi isso mesmo que eu fiz. Me lavei. Lavei o sangue da canoa. Até meu remo, eu lavei. A Jandira ia ser meu caixão e eu queria tudo limpo. Sentei ali na canoa e olhei pela última vez pra onde a gente tava indo. Era engraçado, porque mesmo no vento, na chuva, com nuvem, dava pra ver o topo da Ilha Vitória, que fica bem longe dali. E eu fiquei lembrando que meu pai uma vez me deu uma canoinha que tinha sido feita lá na Vitória. Chamava Ária, a canoa. Chama ainda. E que eu tinha prometido cuidar da Ária, porque meu pai gostava muito dela. E isso mexeu comigo, sabe? Aquela Ilha lá longe…a Ária. É um nome bonito esse também – Ária. E eu tirei força disso. Uma vez me disseram que Ária é nome de uma canção feita pra cantar sozinho. E podia eu deixar a Ária lá? Sem ninguém?
Não. Por isso sem demora eu larguei na água o espinhel que tinha, porque ali na frente era a Laje do Catimbau e eu ia fisgar ela. E ia ficar apoitado nela. Esse era o meu plano. E foi isso, logo que larguei, já senti que os anzóis tinham agarrado na Laje. Tava bem firme ali, mas tava muito forte a puxada, por isso eu enrolei a linha no banco da canoa e deitei no fundo dela, para não fazer as veiz de vela.
De repente, a canoa começou a rosnar de novo e eu percebi que ela tava andando pra frente! Mas que que era isso agora? Que mais que podia acontecer? Aquela canoa sendo arrastada contra o vento! E laje anda debaixo do mar? Anda nada! Alguma coisa tava puxando a canoa. Só sei que eu fiquei bem quieto enquanto a Jandira foi sendo puxada pra praia do Leste, praia bem abrigada. Finalmente, ela encalhou na areia. Eu tava com medo de descobrir o que tava puxando a linha e demorei para criar coragem de puxar aquilo. Mas eu tava muito curioso e fui puxando devagarinho. Não tinha muito resistência. Já tava quase de noite quando eu comecei a ver um clarões azuis na água. Fui olhando bem aquilo, e puxando a linha e aqueles clarões chegando mais perto. Foi me dando uma vontade de chorar que não sabia de onde vinha. Então eu chorei naquela hora, chorei mesmo
Inda mais quando percebi que quem tinha me puxado o tempo todo eram umas enormes de umas sororocas.

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