sexta-feira, 7 de agosto de 2015

ANTONIO E TEREZINHA

Antigos caiçaras que muito estimo  Antonio e  Terezinha Freitas...(Arquivo JRS)

                Você já ouviu falar da Teoria da Deriva, de Guy Debord? Trata-se de uma reorientação no espaço urbano, deixando que as emoções comandem os rumos, as direções. Na verdade, é uma tentativa de amenizar a rotina das cidades, de torná-la um espaço de libertação do ser humano.  Pois é, tomando esse princípio, subi na bicicleta e fui logo cedo pedalando até o lagamar num dia desses. A maré estava baixa, mas tão baixa que até imaginei ser numa ocasião assim que o Padre Anchieta aproveitou para escrever seus versos na Praia de Yperoig, sob a tentação das lindas tupinambás. Passei um bom tempo olhando o mar, admirando a calmaria e a tranquilidade dos pássaros grasnando enquanto vasculhava a claridade das águas em busca de alimento. Até pensei em ir ao Perequê-açu, ver o amigo Oscar. Porém, segui na outra direção, indo para o Itaguá. Na cabeceira da ponte da Barra da Lagoa, pensei num casal que há tempo não visitava: Seo Antônio Freitas e Dona Terezinha. E fui beirando o rio, passando por casas que trouxeram boas lembranças: professor Hércules e Dona Eunice, João Valério e Dona Maria, Seo Mário e Dona Benedita...


                Cheguei no portão e fui avistando a Dona Terezinha. Logo estava dando aquele gostoso abraço nos dois caiçaras antigos que tanto estimo: ele está com 85 anos e ela com 83. Legal, né? Os dois adoram conversar... e eu então... “juntou a fome e a vontade de comer”. E o tempo passou rápido demais.
                Conheci os dois no começo da década de 1970, quando o saudoso filho caçula deles era colega de escola, no “Capitão Deolindo”. O Toninho, além de ótimo desenhista, era o dono da bola. O nosso espaço de dar chutes era na Praça Treze de Maio. Naquele tempo era tudo plano, um terreno de areia original. De vez em quando chegava um parque de diversões, mas não atrapalhava o nosso espaço de brincadeiras. O tempo passou.
                Teresinha nasceu na Marafunda. Antônio é do centro da cidade. Ambos falam de como era o tempo deles, das transformações. Em outra ocasião escreverei mais detalhes dessa prosa gostosa. No momento, alguns “petiscos” para acrescentar à caiçarada:

                “A água encanada era da cachoeira do Morro da Pedreira; enchia uma caixa d’água que ficava ali no encontro das ruas Paraná e Dona Maria Alves. Dito “Caixa D’água” e seus irmãos tinham esse apelido porque moravam perto da caixa d’água. Quem cuidava da água era o Silvestre, pai do Zé Diniz, que morava na Ressaca. O encanamento doméstico era todo feito em chumbo”.

                “A Maria Vitória Jean era dona de toda aquela terra, da parte de cima da cidade, que ia até a Estufa. A casa dela era ali, perto de onde é a prefeitura hoje, bem no lugar em que o Canabrava fez a casa dele. Ela tinha um sobrinho que morava com ela, o Jean, que bebia muito e foi morto a foiçada lá na Maranduba”.

                “Os Freitas eram três irmãos portugueses: um ficou em Ubatuba, outro, Rodrigo de Freitas, foi para o Rio de Janeiro. O terceiro, Teixeira de Freitas, se estabeleceu na Bahia”. [Lembrou da lagoa carioca e da cidade baiana?].

                “Outro ramo da nossa família é Gomes de Pinho, cuja fazenda de café era no Sertão do Puruba, na Água Branca. Era um português que se casou com uma negra (escrava). Minha tia contava que ele morreu em consequência de um ataque de onça. Foi socorrido, estava sendo trazido de canoa para a cidade, mas sucumbiu no mar devido aos ferimentos”.


                Como é bom conversar com esse meu povo!

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